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A Bíblia Premiada

 

        Antes de falecer, logo depois da II Grande Guerra, Margaret Schneider legou ao neto Max uma Bíblia encadernada em couro preto, escrita em Alemão arcaico, a qual era conhecida como "Luther Bible", ou Bíblia de Lutero.

        Entregou-a ao neto, dizendo-lhe que aquele era o maior tesouro que poderia deixar-lhe e que todo dia ele deveria ler da mesma pelo menos dez páginas, a fim de se tornar um homem feliz e realizado, pronto para toda boa obra na vida. O garoto recebeu a Bíblia trancada numa caixa de madeira vermelha e guardou-a num canto do armário, deixando-a esquecida por muitos anos. Para ele era bem mais interessante ler uma Bíblia moderna, que havia comprado na Universidade de Tübingen. Ali estudara Química e aprendera, ao convívio dos professores e colegas liberais, que Lutero e Melâncton eram dois ingênuos, que ainda acreditavam na divindade de Cristo, enquanto os novos teólogos liberais já haviam descartado várias "lendas" da Bíblia, como por exemplo os três primeiros capítulos de Gênesis e muitos trechos do Livro de Êxodo, inclusive a travessia do Mar Vermelho a pé enxuto, etc.

        Os ídolos daquela rapaziada dos anos 50 eram Schleiermacher, Tillich, Bultmann e Nieburh, sem falar nos dois professores ingleses, de Cambridge, Westcott e Hort, todos eles teólogos liberais, os quais viveram no século 19 e primeira metade do século 20, sendo que alguns deles, mesmo se dizendo evangélicos, prestavam culto a Maria e aos santos mortos, eram meio ocultistas e, portanto, faziam incursões no mundo "espiritualista", como chamavam as invocações aos espírito malignos, que acreditavam ser dos parentes falecidos ... e por aí a fora. A Bíblia ensina que "um abismo chama outro abismo". Daí que se alguém arreda um milímetro da Palavra santa, logo vai caindo pelo abismo da heresia e da descrença, como acontece com os teólogos de certa "igreja" mundial, fundada há dezesseis séculos por um pagão com rótulo de cristão... A qual usa uma teologia platônica misturada á teologia judaica, com uma pitada mínima de cristianismo para enganar os tolos. Sua especialidade é o sacerdócio, o qual tem criado fábulas tipo "purgatório", "santos" falecidos, que ouvem as orações dos seus membros, e outras "tradições" que lhe rendem milhões em dólares e outras moedas globais.

        Os anos passaram, Max diplomou-se e depois de ler um anúncio num jornal de Frankfurt, decidiu vir para o Brasil, onde se fixou definitivamente, depois de ter casado com uma gaúcha loura e bonita, que seus pais aprovaram sem restrição, após ter visto uma fotografia. O casal lutou bravamente para construir um futuro, começando pela compra de um terreno de 2.400 metros quadrados em Pelotas, onde Max construiu uma casa confortável, levando seis anos para conseguir esse objetivo, e para lá se mudaram numa cálida e florida manhã de primavera, em 1961. Os pais de Max morreram nos anos 60.

        Anos mais tarde, o alemão de Berlim começou a fabricar alguns corantes sintéticos, além de essências alimentícias de boa qualidade, deixou o emprego na fábrica de um judeu alemão riquíssimo e montou o seu próprio laboratório. O negócio prosperou, fizeram uma viagem pela Europa e América, e a cada dois anos, aproveitando as férias da filha mais velha, que tinha o nome da bisavó, eles faziam uma viagem ao Sul do Brasil, para ver os campos verdejantes carregados de parreiras, e se deleitar com as canções folclóricos alemãs, durante a festa da uva.

        Até que um dia Max morreu de um colapso cardíaco e a esposa e filhas tiveram de continuar o negócio para o qual, felizmente, estavam preparadas. Mesmo assim, as coisas não foram tão bem, pois a inflação galopante dos anos 80 devorava tudo que entrava. Nos anos 90, venderam a pequena fábrica e Carla aposentou-se, deixando a cidade onde moravam e indo residir numa outra, ali perto. Enquanto a filha de Max se decidiu pela terra do pai e dos avós, Carla, a viúva patriota, ficou no Brasil e se dedicou ao estudo das religiões comparadas. Seu conhecimento de Alemão era fraco, por isso nunca se preocupou em ler a Bíblia de Lutero, que Max havia deixado, na mesma caixa de madeira em que a havia recebido da avó Margaret.

        Um dia, porém, desejando fazer uma comparação de datas relativas à Reforma Protestante, Carla resolveu abrir a caixa e folhear o velho Livro preto, em busca dessa informação. E qual não foi a sua surpresa ao descobrir lá dentro uma caderneta de poupança (Sparbuch), em nome do marido, cujo montante já havia chegado a muitos milhares de marcos alemães.

        Carla viajou para Frankfurt, conseguiu retirar o dinheiro da conta, depois de apresentar a documentação massuda exigida pela tremenda burocracia do banco alemão, e o dividiu em três partes – entre ela e as filhas.

        Se Max tivesse seguido o conselho da avó Margaret, lendo aquele Livro preto todo dia, teria logo descoberto aquela caderneta de poupança e o seu futuro poderia ter sido bem melhor. Contudo, como a Palavra de Deus é viva e eficaz... e permanece para sempre, e como todas as coisas contribuem para o bem dos que amam a Deus, o dinheiro chegou na hora exata, pois, não tendo servido para o neto de Margaret, veio a ser utilizado pelos seus descendentes de terceira e quarta geração, agora alunos de universidades alemãs, onde, sem dúvida, honrarão o nome de Max e do país onde nasceram.

        Carla, agora, já bem idosa, resolveu estudar Alemão e tem podido dedicar-se ao estudo das religiões comparadas, indo a Berlim e colhendo informações na língua do próprio Lutero, o pai da "Bíblia premiada".

 

Mary Schultze

Pesquisadora de Religião

ex-católica

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